{"id":5915,"date":"2015-10-14T16:35:03","date_gmt":"2015-10-14T19:35:03","guid":{"rendered":"http:\/\/escritacontabilidade.adv.br\/blog\/?p=5915"},"modified":"2015-10-14T16:35:03","modified_gmt":"2015-10-14T19:35:03","slug":"desigualdade-entre-ricos-e-pobres-se-agrava-com-a-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritacontabilidade.adv.br\/blog\/2015\/10\/desigualdade-entre-ricos-e-pobres-se-agrava-com-a-crise\/","title":{"rendered":"Desigualdade entre ricos e pobres se agrava com a crise"},"content":{"rendered":"<p>Bras\u00edlia \u2013 O governo da presidente Dilma Rousseff perdeu a batalha no combate \u00e0 desigualdade. Desde que assumiu o poder, ela n\u00e3o conseguiu reduzir o fosso que separa os mais ricos dos mais pobres e ainda ajudou a piorar a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, com as mais baixas taxas de crescimento econ\u00f4mico desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Marcelo Medeiros, professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), um estudioso do assunto, revela que, entre 2006 e 2012, a diferen\u00e7a social manteve-se est\u00e1vel. \u201cA concentra\u00e7\u00e3o da renda n\u00e3o mudou. A fatia dos 1% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o continuou detentora de um quarto da renda produzida no pa\u00eds, e 5% mantiveram metade da renda total nesse per\u00edodo\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o dispor de dados mais recentes, Medeiros reconhece que, com a desacelera\u00e7\u00e3o da economia, o aumento do desemprego e a infla\u00e7\u00e3o em torno de 10% ao ano, a desigualdade dever\u00e1 aumentar \u201cse n\u00e3o houver queda na renda dos mais ricos\u201d. \u201cPara se ter uma ideia precisa, s\u00e3o necess\u00e1rios uma an\u00e1lise mais densa e um per\u00edodo mais longo de an\u00e1lise\u201d, ressalva.<\/p>\n<p>O economista Jorge Arbache, professor da Universidade de Bras\u00edlia, n\u00e3o tem d\u00favidas de que a desigualdade vem crescendo, principalmente devido ao aumento do desemprego e da infla\u00e7\u00e3o. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, boa parte do ganho de renda obtido pelos brasileiros em per\u00edodos anteriores est\u00e1 se perdendo devido \u00e0s trapalhadas do governo na \u00e1rea fiscal, que fizeram a economia mergulhar na recess\u00e3o. \u201cAs pessoas est\u00e3o ficando mais pobres. Isso \u00e9 fato. A renda per capita deve cair 7,45% entre 2014 e 2017\u201d, calcula.<\/p>\n<p>A falta de um plano estrat\u00e9gico para fazer o pa\u00eds voltar a crescer deixam qualquer empres\u00e1rio sem vontade de investir no pa\u00eds no meio da recess\u00e3o e da crise pol\u00edtica. N\u00e3o \u00e0 toa, o descontrole nas contas p\u00fablicas j\u00e1 fez o pa\u00eds perder o selo de bom pagador da ag\u00eancia de classifica\u00e7\u00e3o de risco Standard &amp; Poor\u2019s em setembro e, pelas estimativas dos especialistas, far\u00e1 com que o pa\u00eds tamb\u00e9m perca o grau de investimento da Moody\u2019s ainda neste ano.<\/p>\n<p>Para coroar esse quadro preocupante, as maquiagens cont\u00e1beis feitas \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es de 2014, em desrespeito \u00e0 Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), abusando das \u201cpedaladas fiscais\u201d (atrasos nos repasses aos bancos p\u00fablicos), foram cruciais para que o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU), rejeitasse as contas de Dilma de 2014, na \u00faltima quarta-feira.<\/p>\n<p>Durante a elei\u00e7\u00e3o do ano passado, o governo suspendeu a divulga\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios estudos do Ipea que apontavam para o aumento da pobreza \u2014 um deles feito por Medeiros. O economista chegou a pedir exonera\u00e7\u00e3o do cargo de coordenador que ocupava na \u00e9poca, mas continuou na institui\u00e7\u00e3o como pesquisador e deve ser chamado a depor no processo de impugna\u00e7\u00e3o da chapa Dilma\/Temer que tramita no Tribunal Superior Eleitoral.<\/p>\n<p>Em parceria com o pesquisador Pedro H. Souza, Medeiros cruzou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), com informa\u00e7\u00f5es da Receita Federal sobre o Imposto de Renda. A conclus\u00e3o foi a de que a desigualdade se manteve est\u00e1vel entre 2006 e 2012. \u201cV\u00e1rios testes apontam um resultado que parece ser importante, mas ainda n\u00e3o sabemos explicar adequadamente: o comportamento da desigualdade observado nas Pnads muda de dire\u00e7\u00e3o quando os dados do Imposto de Renda s\u00e3o utilizados. Isso sugere a possibilidade de que os determinantes do n\u00edvel de renda para a popula\u00e7\u00e3o mais baixa sejam diferentes dos determinantes de rendimento dos mais ricos\u201d, diz o estudo \u201cA estabilidade da desigualdade no Brasil entre 2006 e 2012: resultados adicionais\u201d, conclu\u00eddo recentemente e ainda n\u00e3o publicado.<\/p>\n<p>\u201cEm outras palavras, temos alguma evid\u00eancia de que aquilo que explica a pobreza e o centro da distribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica bem a riqueza. Por \u00f3bvio que possa parecer, isso indica que precisamos reavaliar algumas das conclus\u00f5es de nossas pesquisas sobre a desigualdade. No entanto, este \u00e9 apenas um ind\u00edcio. Sua interpreta\u00e7\u00e3o deve ser feita com cautela. Ainda precisamos de mais evid\u00eancias para ter seguran\u00e7a\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Retrocesso dolorido<\/p>\n<p>A economista Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e diretora da consultoria Galanto\/MBB, em Washington, avalia que o retrocesso que o pa\u00eds vem sofrendo ser\u00e1 dolorido para a popula\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds levar\u00e1 muitos anos para voltar a ter o grau de investimento. \u201cO Uruguai levou 10 anos, e a culpa nem foi da economia interna, e sim da Argentina, quando deu o calote na d\u00edvida. No caso do Brasil, o processo tamb\u00e9m ser\u00e1 demorado\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Ela destaca ainda que a necessidade de fazer o ajuste fiscal permanece, mas o governo n\u00e3o tem a credibilidade necess\u00e1ria execurar a tarefa. \u201cA situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o desarranjada dos pontos de vista pol\u00edtico e econ\u00f4mico que n\u00e3o tem como sustentar o investment grade do pa\u00eds. A popula\u00e7\u00e3o corre o risco de reviver coisas dolorosas at\u00e9 que tudo seja arrumado. Isso leva tempo, e \u00e9 preciso ter capacidade para evitar que o pa\u00eds caia num cen\u00e1rio de descontrole inflacion\u00e1rio, que \u00e9 o jeito mais f\u00e1cil de corroer os problemas fiscais. Tenho muito medo disso\u201d, alerta.<\/p>\n<p>O economista Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, \u00e9 taxativo ao apontar o maior perdedor dessa crise: a classe m\u00e9dia. \u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Quem ascendeu socialmente \u00e9 quem perde mais com essa infla\u00e7\u00e3o alta. Para essas pessoas, mesmo se o consumo de energia, uma das principais despesas que elas t\u00eam em casa, n\u00e3o aumentou, a conta de luz dobrou. Logo, elas n\u00e3o est\u00e3o mais conseguindo adquirir as mesmas coisas que compravam antes\u201d, destaca. Monica de Bolle tamb\u00e9m acredita que \u201cas pessoas que conseguiram migrar para a classe C ser\u00e3o as que mais v\u00e3o sofrer com a crise. \u201cO retrocesso da redu\u00e7\u00e3o de desigualdade ser\u00e1 inevit\u00e1vel\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Sem alternativa, a popula\u00e7\u00e3o abre m\u00e3o do n\u00edvel de consumo que tinha alcan\u00e7ado nos anos de bonan\u00e7a. \u00c9 o caso da empregada dom\u00e9stica Adriana Pinto, 32 anos. \u201cEst\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil fazer compras no supermercado. Est\u00e1 tudo muito caro. H\u00e1 um ano, comprava dois sacos de arroz por m\u00eas. Agora, levo um s\u00f3. Carne, s\u00f3 de vez em quando. E, leite, nem compro mais\u201d, diz. Ela conta que reduziu as idas ao cinema com a fam\u00edlia e que n\u00e3o leva mais o filho para lanchar na rua. \u201cA passagem do \u00f4nibus subiu e preciso economizar para continuar indo trabalhar\u201d, conta. (Rosana Hessel, com Mariana Areias)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bras\u00edlia \u2013 O governo da presidente Dilma Rousseff perdeu a batalha no combate \u00e0 desigualdade. Desde que assumiu o poder, ela n\u00e3o conseguiu reduzir o fosso que separa os mais ricos dos mais pobres e ainda ajudou a piorar a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, com as mais baixas taxas de crescimento econ\u00f4mico desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. 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