{"id":5077,"date":"2014-10-03T13:31:36","date_gmt":"2014-10-03T16:31:36","guid":{"rendered":"http:\/\/escritacontabilidade.adv.br\/blog\/?p=5077"},"modified":"2014-10-03T13:31:36","modified_gmt":"2014-10-03T16:31:36","slug":"quando-o-contador-se-torna-xerife","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritacontabilidade.adv.br\/blog\/2014\/10\/quando-o-contador-se-torna-xerife\/","title":{"rendered":"Quando o contador se torna xerife"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 incomum que contadores tenham uma vis\u00e3o muito mais acurada da sa\u00fade de um neg\u00f3cio do que os pr\u00f3prios propriet\u00e1rios. \u00c9 razo\u00e1vel que assim seja. Enquanto o empreendedor ou seus diretores est\u00e3o preocupados com o desenvolvimento do neg\u00f3cio como um todo, o contabilista tem foco muito espec\u00edfico e, assim, \u00e9 capaz de detectar aqueles pequenos tremores que talvez demonstrem a proximidade de um terremoto. Al\u00e9m disso, quem fundou uma empresa e a toca tem com ela uma rela\u00e7\u00e3o emocional que, por vezes, n\u00e3o permite uma vis\u00e3o desapaixonada do andamento das coisas. Isto \u00e9, acabam usando certo excesso de otimismo e n\u00e3o observando fatos que poderiam demonstrar algum problema.<\/p>\n<p>Em empresas de m\u00e9dio porte que est\u00e3o crescendo de forma acelerada, especialmente, certas quest\u00f5es podem passar despercebidas por longos per\u00edodos. Uma delas, e na qual o contador pode ser a diferen\u00e7a entre a empresa saber e n\u00e3o saber de sua ocorr\u00eancia, \u00e9 a de desvios de recursos ou roubos organizados, tanto por funcion\u00e1rios quanto por estes ajudados por criminosos externos.<\/p>\n<p>Esse tipo de situa\u00e7\u00e3o pode vitimar um m\u00e9dio neg\u00f3cio com mais facilidade justamente por ele ser m\u00e9dio \u2013 isto \u00e9, n\u00e3o conta com o controle pr\u00f3ximo que os donos t\u00eam nos pequenos empreendimentos nem com o ferramental e pessoal de gest\u00e3o com que contam as grandes companhias. Muitas vezes, alguns indicadores simples, se bem observados pelo contador, podem denunciar que h\u00e1 algo de podre na empresa e, mais ainda, onde o malfeito pode estar ocorrendo. Um olhar mais detido sobre os gastos da \u00e1rea de RH, por exemplo, j\u00e1 me levou a descobrir esquemas mirabolantes de demiss\u00f5es nas quais o pr\u00f3prio jur\u00eddico da empresa estava envolvido, criando situa\u00e7\u00f5es sequenciais de desvios por meio de acordos trabalhistas fraudulentos.<\/p>\n<p>Eu penso que o papel do contador seja manter a contabilidade do cliente, interno ou externo, na mais correta perfei\u00e7\u00e3o \u2013 o que implica em ficar atento e agir como um guardi\u00e3o dessa perfei\u00e7\u00e3o poss\u00edvel inclusive quanto a desvios \u00e9ticos feitos \u00e0 revelia da empresa. Nesse sentido, investir algum tempo observando o cen\u00e1rio e buscando ocorr\u00eancias \u201cfora da curva\u201d \u00e9 um exerc\u00edcio que pode trazer benef\u00edcios para o cliente, e naturalmente para o pr\u00f3prio contabilista.No caso da ocorr\u00eancia em RH que citei, a descoberta da fraude se deu em virtude de \u201cinstabilidades\u201d no fluxo comum \u00e0 \u00e1rea. Mas a descoberta pode se dar justamente pelo vi\u00e9s contr\u00e1rio, isto \u00e9, pela observ\u00e2ncia de fatos recorrentes. N\u00e3o \u00e9 anormal uma empresa investir certa quantia de dinheiro todo m\u00eas adquirindo software digamos, seus 20 mil reais. Mas, considerando o perfil da empresa, o n\u00famero de funcion\u00e1rios, o tipo de software adquirido e os fornecedores envolvidos, talvez as coisas n\u00e3o continuem t\u00e3o comuns. Ser\u00e1 que \u00e9 razo\u00e1vel ela comprar 50 licen\u00e7as do programa Xis do fornecedor XisXis todo santo m\u00eas se s\u00f3 tem 60 funcion\u00e1rios? Averiguar, pelo bem do cliente, nunca \u00e9 demais \u2013 e, muitas vezes, uma coisa \u00e0 toa leva a outra grande, bem grande, quando h\u00e1 fraudes envolvidas.<\/p>\n<p>Em meus muitos anos como investigador de corrup\u00e7\u00e3o corporativa, o que mais vi, e infelizmente continuo vendo, \u00e9 que na grande maioria dos casos a empresa \u00e9 lesada por trai\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios executivos e funcion\u00e1rios via propinas. Melhor dizendo, por meio de \u201ckick back\u201d: o fornecedor manda de volta para o funcion\u00e1rio parte do dinheiro recebido fraudulentamente.<\/p>\n<p>Isso ocorre por exemplo quando o fornecedor paga para conseguir um contrato a valores mais altos que do mercado \u2013 e, pasme, \u00e9 o tipo de coisa que ocorre desde fornecimentos banais como servi\u00e7os de limpeza e de alimenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 mais sofisticados, como TI ou jur\u00eddico. A lista, na verdade, n\u00e3o tem fim. E, em quase 100% dos casos, envolve mais do que uma \u00fanica pessoa na empresa. \u00c9 razo\u00e1vel, j\u00e1 que para fazer desvios \u00e9 preciso abranger mais de uma \u00e1rea e contar com os olhos fechados de colegas.<\/p>\n<p>Apesar de isso, de fato, n\u00e3o ser do escopo \u201cnormal\u201d do contador, imagino que possa ser interessante ficar atento e agir \u2013 at\u00e9 porque, no limite, ter desvios criminosos na contabilidade que voc\u00ea assina n\u00e3o \u00e9 exatamente uma ideia muito estimulante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 incomum que contadores tenham uma vis\u00e3o muito mais acurada da sa\u00fade de um neg\u00f3cio do que os pr\u00f3prios propriet\u00e1rios. \u00c9 razo\u00e1vel que assim seja. 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