{"id":4640,"date":"2014-06-02T16:21:04","date_gmt":"2014-06-02T19:21:04","guid":{"rendered":"http:\/\/escritacontabilidade.adv.br\/blog\/?p=4640"},"modified":"2014-06-02T16:21:04","modified_gmt":"2014-06-02T19:21:04","slug":"incertezas-na-rota-do-dolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritacontabilidade.adv.br\/blog\/2014\/06\/incertezas-na-rota-do-dolar\/","title":{"rendered":"Incertezas na rota do d\u00f3lar"},"content":{"rendered":"<p>A trajet\u00f3ria do d\u00f3lar depender\u00e1 de dois acontecimentos internacionais e da rea\u00e7\u00e3o do Banco Central a eles. O primeiro se dar\u00e1 na Europa. Na quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) far\u00e1 a mais aguardada reuni\u00e3o de pol\u00edtica monet\u00e1ria do ano. Deve anunciar provid\u00eancias para espantar a defla\u00e7\u00e3o da zona do euro. Tais medidas agir\u00e3o no sentido indireto de apreciar as moedas emergentes contra o d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Um dia depois, ser\u00e1 publicado nos EUA o relat\u00f3rio do mercado de trabalho de maio, o \u201cpayroll\u201d. Dependendo do resultado, a seta cambial estar\u00e1 apontada na mesma dire\u00e7\u00e3o da imprimida pelo BCE. Ou, ao contr\u00e1rio, pode atuar para neutralizar seus benef\u00edcios aos emergentes. O BC tende a esperar a resolu\u00e7\u00e3o dessas indefini\u00e7\u00f5es para s\u00f3 ent\u00e3o anunciar suas inten\u00e7\u00f5es para a rolagem dos swaps cambiais que vencem no in\u00edcio de julho.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do m\u00eas que vem ir\u00e1 vencer um megalote de swaps em valor ligeiramente superior a US$ 10 bilh\u00f5es. O BC vem ampliando o volume de resgate nos \u00faltimos tr\u00eas meses, ou seja, a pol\u00edtica hoje \u00e9 de retirada parcial do hedge cambial oferecido fartamente no passado. Em mar\u00e7o e abril, deixou de rolar cerca de 25% dos contratos antigos.<\/p>\n<p>Em maio, subiu para quase 50% o montante resgatado. Em junho, a estrat\u00e9gia ter\u00e1 de conjugar a avalia\u00e7\u00e3o do resultado sobre o \u00e2nimo dos investidores globais dos eventos previstos para esta semana com a decis\u00e3o que ter\u00e1 de ser tomada no dia 30. Neste dia acaba o segundo est\u00e1gio do programa de interven\u00e7\u00f5es cambiais criado pelo BC em agosto do ano passado.<\/p>\n<p>Na primeira etapa, que durou at\u00e9 dezembro, a autoridade se comprometeu a oferecer swaps cambiais novos no volume semanal de US$ 2 bilh\u00f5es, al\u00e9m de linhas de cr\u00e9dito em d\u00f3lar aos bancos. Na segunda, destinada a vigorar ao longo do primeiro semestre, a ra\u00e7\u00e3o semanal de instrumentos de hedge foi cortada \u00e0 metade. O que ir\u00e1 fazer no terceiro est\u00e1gio? Entre um jogo e outro da Copa do Mundo, os operadores ter\u00e3o este m\u00eas farto material para brincar com as cota\u00e7\u00f5es do d\u00f3lar. A primeira dica sobre a rota do terceiro est\u00e1gio do programa vir\u00e1 da decis\u00e3o que o BC tomar sobre o grau de rolagem do lote de US$ 10 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o do BCE deve ser mais importante para o remanejamento das carteiras globais do que o \u201cpayroll\u201d americano. O BCE jamais deixar\u00e1 de ser a t\u00edpica institui\u00e7\u00e3o austera inspirada no conservadorismo monet\u00e1rio germ\u00e2nico, mas foi t\u00e3o sinalizada a necessidade de medidas destinadas a ampliar a liquidez que os analistas j\u00e1 est\u00e3o esperando um mix que inclua redu\u00e7\u00e3o da taxa b\u00e1sica de 0,25% para zero, imposi\u00e7\u00e3o de juros negativos \u00e0s opera\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias e um programa de compra de ativos, com a emiss\u00e3o prim\u00e1ria de at\u00e9 1 trilh\u00e3o de euros.<\/p>\n<p>Como a felicidade do mercado \u00e9 sempre inversamente proporcional ao grau das expectativas, mesmo que o pacote seja bom, mas n\u00e3o seja tudo isso, a receptividade poder\u00e1 denunciar uma ponta de frustra\u00e7\u00e3o. Mas qualquer programa de aumento da liquidez acaba vazando para os ativos emergentes, sobretudo para os mais generosos entre eles, os do Brasil.<\/p>\n<p>O \u201cnonfarm payroll\u201d de maio, a ser publicado na sexta-feira, tem a ingrata tarefa de mitigar a frustra\u00e7\u00e3o do mercado americano com a retra\u00e7\u00e3o de 1% experimentada pelo PIB no primeiro trimestre do ano. Para tanto, n\u00e3o basta ao relat\u00f3rio ser bom, tem de vir muito bom, bem acima das expectativas. A cria\u00e7\u00e3o de novos postos de trabalho precisa mostrar que as proje\u00e7\u00f5es para o desempenho do PIB neste segundo trimestre s\u00e3o confi\u00e1veis, retirando a vis\u00e3o de uma alta entre 3% e 3,8% do produto no acumulado do ano da categoria psiqui\u00e1trica de del\u00edrio coletivo. E seria imprescind\u00edvel que a taxa de desemprego ca\u00edsse dos 6,3% de abril para mais perto de 6% gra\u00e7as a um acr\u00e9scimo da popula\u00e7\u00e3o ocupada e n\u00e3o da diminui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa.<\/p>\n<p>O mercado secund\u00e1rio de treasuries s\u00f3 precisa de um pretexto de razo\u00e1vel consist\u00eancia para empreender o longo caminho de volta. Em maio, os juros dos t\u00edtulos de 10 anos desceram a ladeira. Abriram o m\u00eas a 2,67%, foram baixando at\u00e9 chegar ao patamar de 2,50% at\u00e9 ent\u00e3o considerado um piso de dif\u00edcil rompimento, mas bateram em 2,40% na quinta-feira de manh\u00e3. Encerraram o m\u00eas em ainda desconfort\u00e1veis 2,47%.<\/p>\n<p>Se o \u201cpayroll\u201d n\u00e3o for capaz de levantar a autoestima americana e se o BCE, contrariando seus princ\u00edpios, vier mesmo a enveredar pelos odiados desv\u00e3os heterodoxos, o d\u00f3lar voltaria aqui a namorar o degrau entre R$ 2,20 e R$ 2,23. E o BC teria de ampliar a dose de resgate dos swaps velhos e pensar em uma terceira fase do seu programa ainda mais flex\u00edvel. Na sexta-feira, a procura por hedge privado capaz de suprir a falta do oficial fez a moeda valorizar-se 0,76%, cotada a R$ 2,2408, encerrando o m\u00eas com modesta alta de 0,48%. Ainda bem que a infla\u00e7\u00e3o de maio ser\u00e1 baixinha, caso contr\u00e1rio o real teria se valorizado em termos reais.<\/p>\n<p>Os especialistas ouvidos pelo Focus esperam um IPCA de 0,45% em maio. O \u00edndice ser\u00e1 divulgado oficialmente pelo IBGE na sexta-feira. O indicador de infla\u00e7\u00e3o do sistema de metas atravessa um per\u00edodo ingrato do ano: enquanto a infla\u00e7\u00e3o mensal est\u00e1 em queda, a acumulada em doze meses sobe. Qual das duas deveria ser a mais observada pelo Copom na decis\u00e3o de sua pol\u00edtica monet\u00e1ria? O mercado anseia muito que a ata da reuni\u00e3o realizada na semana passada, a ser editada na manh\u00e3 de quinta-feira, traga alguma orienta\u00e7\u00e3o sobre o fim do ano e o come\u00e7o de 2015. \u00c9 improv\u00e1vel. \u201cNeste momento\u201d, o comit\u00ea s\u00f3 toma decis\u00f5es com prazo de validade de 45 dias.<\/p>\n<p>Certamente est\u00e1 atento a dois fatos. O primeiro: m\u00eas a m\u00eas, o IPCA vem mais baixo, passando atestado de compet\u00eancia \u00e0 sua pol\u00edtica monet\u00e1ria e avalizando a advert\u00eancia de que os efeitos do ciclo de alta da Selic s\u00e3o cumulativamente defasados. O IPCA caiu de 0,92% em mar\u00e7o para 0,67% em abril, deve fechar maio em torno de 0,45% e baixar para perto de 0,34% (proje\u00e7\u00e3o Focus) em junho. Mas o BC n\u00e3o pode sair soltando roj\u00e3o. A outra escadinha, a do IPCA acumulado em 12 meses, \u00e9 de alta: 6,15% em mar\u00e7o, 6,28% em abril e algo como 6,40% em maio. E a ala mais impenitente do mercado n\u00e3o v\u00ea a hora em que chegar\u00e1 no segundo semestre a furar o teto de 6,5% da banda inflacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>O segundo: a queda mensal est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 perda de vigor da economia. Quase n\u00e3o passa um dia sem sair um dado revelador da perda de confian\u00e7a de empres\u00e1rios e consumidores e confirmador da atividade mais fraca. Meio at\u00f4nitos, os economistas revisam para baixo suas estimativas de PIB para o ano. Come\u00e7a a ganhar peso o progn\u00f3stico de uma alta de apenas 1,5%. E a economia ainda nem sentiu todo o peso da paulada de 3,75 pontos desferida pela Selic. Sempre muito s\u00f3brios, os departamentos de economia dos dois maiores bancos privados brasileiros, depois do resultado do PIB no primeiro trimestre (alta de 0,2%), estabeleceram proje\u00e7\u00f5es para o acumulado do ano de 1,5% (Bradesco) e de 1% (Ita\u00fa).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trajet\u00f3ria do d\u00f3lar depender\u00e1 de dois acontecimentos internacionais e da rea\u00e7\u00e3o do Banco Central a eles. O primeiro se dar\u00e1 na Europa. Na quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) far\u00e1 a mais aguardada reuni\u00e3o de pol\u00edtica monet\u00e1ria do ano. Deve anunciar provid\u00eancias para espantar a defla\u00e7\u00e3o da zona do euro. 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